quinta-feira, 18 de novembro de 2010

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- Precisamos achar esse calabouço. O senhor sabe onde fica? – perguntou Hugo sem tirar os olhos de Múria.
O Sr. Martus riu da cara de Hugo.
- Do que o senhor ri?
- Ele ri da sua coragem... querido. Nunca nenhuma criatura mística ou algum humano dessa floresta conseguiu derrotar Gandon – disse Múria, paralisada. – O calabouço fica no castelo do próprio feiticeiro, que está além das montanhas. É perigoso demais entrar lá.
- E por quê? – perguntou Eduardo.
- Porque é de difícil acesso. Veem aquelas três montanhas? – e o Sr. Martus apontou o focinho na direção de três montanhas altas e imponentes, clareadas pelo alaranjado do sol.
- Sim – disseram os dois.
- O Castelo de Gandon fica logo atrás delas. Mas parece uma eternidade chegar até lá, pois há coisas monstruosas que impedem você – avisou o Sr. Martus cansado.
- São as Três Irmãs – falou a raposa fêmea.
Eduardo e Hugo viram de longe as três montanhas imponentes, uma do lado da outra, e sabiam que não seria tão fácil chegarem lá até o anoitecer. Os irmãos estavam preocupados e confusos. Agora Eduardo pensava; será que deveríamos confiar nas raposas? Hugo era o mais nervoso. Olhava para Múria como se estivesse focando os olhos em alguma estátua de um museu. As raposas rodeavam as figueiras. Soltavam risinhos entre si. Mas não foram notadas nem por Hugo que estava pensativo e nem por Eduardo que estava distraído, vendo os raios do sol refletir nas montanhas.
- O que faremos agora? – pensou Hugo, andando em círculos. – Como vamos tirar a nossa irmã de lá?
- À uma hora dessas aqueles goblins já devem até ter entregue a garota à Gandon – interpôs o Sr. Martus, parecendo não se importar com o desespero estampado no rosto dos garotos. – Já devem ter chegado ao castelo.
- Martus! – guinchou Múria, dando-lhe um sacode de chega pra lá, com o focinho. – Não diga uma coisa dessas.
- Mas não é verdade? – bradou ele, com raiva.
Hugo se adiantou. Andou para perto do Sr. Martus e disse:
- O senhor não nos disse que era quase impossível chegar lá?
- E-Eu q-quis d-dizer q-que e-é q-quase – soluçou o Sr. Martus confuso.
- Então há uma maneira de chegar mais rápido? – tornou Eduardo, inspirando uma possível tentativa fracassada de irem ao Castelo de Gandon.
Múria lhe dera outro chega pra lá, com o focinho. Tentou justificar o erro do esposo, mas ouvira um grito forte que saíra da boca de Hugo.
- Diga-nos de uma vez. É a nossa irmã que está naquele castelo e precisamos salvá-la... antes que aqueles goblins a devorem.
- Há sim, um modo de chegar mais rápido. Mas é muito perigoso e deve estar sendo vigiado por alguns capangas do feiticeiro. Ninguém se atreve a passar por lá, nem mesmo os goblins. Eles devem ter entregue a sua irmã para alguém.
O Sr. Martus não falou nada.
- Diga para que lado devemos ir! – suplicou Eduardo, andando para perto de Hugo.
- Acho que vocês precisam de uma boa noite de sono. Se quiserem, podem passar a noite em nossa casa. Não é luxuosa, mas dá para o gasto. E amanhã bem cedo partiremos todos juntos para o Castelo de Gandon. Pelo outro lado das Três Irmãs, que é mais longe, só que mais seguro.

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- O que faremos agora? Como vamos explicar a todos lá em casa? Vamos dizer; mamãe, pessoal, por curiosidade, fomos à Casa dos Horrores, e lá, encontramos um livro, um Grimório, que nos levou a uma terra mágica, onde habitam goblins e onde mora um terrível feiticeiro chamado Gandon que quer capturar todos os humanos que estiverem caminhando à toa pela Floresta de Trion – cantarolava Eduardo, recebendo um safanão do irmão, no pescoço.
- Fique quieto. Deixe-me pensar... – vociferou Hugo, levando as mãos à cabeça e apertando-a com força.
Mas Eduardo não ia ceder sem brigar. Aproximou-se do muro mágico. Quando ia dar outro soco, a machadinha começou a se mexer, desprendendo-se da terra fofa. Hugo a viu rodopiar no alto e flutuar, e em fração de segundo, desapareceu, na direção onde Crisco, Mom e Trupp levaram Raquel.
- Vamos atrás deles agora – falou Eduardo, olhando para a cara do irmão.
Hugo fez uma cara de quem topava tudo, a qualquer hora e em qualquer instante.
- Se eu fosse vocês não iria atrás deles agora. Isso aqui a noite fica muito assustador – sussurrara uma vozinha suave de trás de uma figueira.
Eduardo viu um focinho preto. Hugo se afastou da árvore, e correu para o lado do irmão.
- Quem é você? – perguntou Eduardo, vendo novamente o focinho.
- Sou o Sr. Martus. Ao seu dispor! – comentou a vozinha.
E colocou a cabeça para o lado: era uma raposa, meio velha e abatida, que estava escondida atrás da figueira. Seu rabo parecia a um espanador de tão suave que era, e seus olhos tinham uma cor amarelada, que passava certa desconfiança a Eduardo e Hugo quando ela pulou de cima das raízes para o chão.
- Você é...? – Hugo se assustou ao ver uma raposa falante.
- Uma raposa? – disse o Sr. Martus, aproximando-se dos dois. – Aquela é Múria, minha esposa.
Do nada aparecera outra raposa de trás da figueira. Mas esta era mais jovem e meio magricela, bem menor que o parceiro. Com uma voz forte e melodiosa.
- Como vão crianças? – começou a raposa fêmea logo ao lado de Hugo. – Não podemos deixar de presenciar aqueles goblins levarem a irmã de vocês.
Eduardo tossiu. Olhou para os olhos negros de Múria: pareciam que estavam com certa alegria.
- Vocês a viram ser levada e nem sequer nos ajudaram? – bufou ele, certo de que vira o Sr. Martus dar um sorrisinho de meia-boca.
Múria deu um sorrisinho.
- Perdoem-nos queridos. Nós temos um lema nessa floresta; nunca confie em ninguém. Muito menos em goblins.
- Eles levaram a nossa irmã – disse Eduardo, limpando o nariz. O Sr. Martus encaminhou-se para o lado da esposa que, estava defronte para os dois garotos.
- Ó, querido. Lamento muitíssimo – falou ela, lamentando uma falsa dor.
- O que ela lamenta? – perguntou Eduardo, rosnando.
Múria abaixou a cabeça e o Sr. Martus terminou a frase da esposa.
- Ela quer dizer que é muito difícil escapar do Calabouço de Gandon.
Eduardo mexeu a cabeça. Hugo olhou para os lados. Passou a mão no cabelo e disse:
- Temos que procurar Raquel. E tirá-la daquele calabouço.
- Já irá anoitecer e vocês não vão conseguir chegar lá a tempo – indagou Múria, olhando para o céu, entre os galhos retorcidos das figueiras.

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- Hugo... não estou me sentindo bem! – avisou Raquel, passando a mão na nuca e retirando o pequeno dardo do tamanho de um dedo mindinho. – Estou...

- Agüente mais um pouco – pediram Eduardo e Hugo, juntos.

Mas Raquel largara a mão do irmão e Trupp lançara do alto a sua boleadeiras e a garota caíra no chão cheio de folhas secas.

- Hugo! – berrou Raquel, caída de bruço no chão, com a cabeça levantada para o alto, esticou a mão e tombou, desmaiada.

- Raquel... Raquel! – esganiçou-se Hugo, voltando para ajudar a irmã a se levantar.

- Raquel – Eduardo vinha correndo logo atrás de Hugo.

Era tarde demais. Mom lançara a sua machadinha a uns trinta centímetros à frente dos pés de Hugo, e abrira um muro mágico. Hugo tentou passar por ele, mas foi lançado para trás. Eduardo dava socos e pontapés para tentar destruí-lo, só que nada acontecera. E Crisco e Trupp pularam de cima das árvores, para o chão, ao lado de Mom em cima da porca verde e de Raquel desmaiada logo à frente, rente ao muro mágico.

- Não façam nada com ela – ordenou Hugo, esticando o dedo indicador. – Não se atrevam a fazer nada com ela. Entenderam?

- Raquel – choramingou Eduardo de joelhos entre o muro que os separava da irmã, imaginando, por um minuto que fosse a reação da mãe se eles chegassem sem ela na Casa de Campo. –, acorde... Vamos embora daqui!

Crisco riu escandalosamente.

- Pelo menos conseguimos capturar um. Os outros pegamos depois. Afinal, estarão perdidos mesmo pela floresta – o goblin dera um sorriso a Hugo e Eduardo. Puxou os longos cabelos aloirados da garota e riu novamente.

- Agora amarre-a... Trupp! – mandou Mom de cima da porca. – Gandon não ficará alegre, nem satisfeito em saber que capturamos somente um humano intruso.

O goblin de nariz melecado que carregava a rede foi em direção de Raquel. E jogou a rede em cima da garota e a enrolou como uma aranha enrola a sua presa.

- Raquel! – sussurrou Eduardo, passando a mão no muro mágico. Olhou para a machadinha fincada no chão, tentou agarrá-la, mas a sua mão ardeu, como se acabasse de levar uma dolorosa queimadura. – Não... por favor... não façam nada com ela.

- Suas criaturas grotescas – ofendeu Hugo, furioso. – Nojentas... feias...

Ele não sabia mais o que dizer a sua boca travou quando Crisco deu outra risada. Aproximou-se do muro mágico e disse:

- São esses tipos de elogios que fazem a nossa fama... criança.

Crisco deu um chute nas costelas de Raquel conferindo se a garota estava acordada ou desmaiada mesmo. E a empurrou, com a ajuda de Trupp, para perto da porca. Um estrondo, e, jogaram Raquel em cima do animal como um saco de batatas. A garota ficara de bruço, com as pontas dos dedos das mãos e dos pés encostando na folhagem da floresta enquanto Mom pulava nas costas dela, como se estivesse saltando em um pula-pula.

- Adeus humanos – disse Mom, sorrindo, com aqueles dentinhos pontiagudos como serrinhas.

- Tragam-na. O que vocês vão fazer com ela?

Hugo foi cortado por uma gargalhada que Crisco dera novamente ao se afastar do muro mágico.

- Raquel! Raquel! Raquel! – e Eduardo vira a irmã sendo levada pelos goblins. – Voltem aqui...

Crisco foi se afastando junto com Trupp. A porca não parou de grunhir e, Eduardo e Hugo viram eles se distanciarem, fugaz, do lugar no qual estavam. Apenas se viam as longas e pontudas orelhinhas de morcegos de longe.