A Busca das Chaves do Poder
Imaginem o nosso mundo repleto de criaturas místicas e humanos capazes de liberar magia pelas mãos. Imaginaram? Não parece nada coisa desse nosso mundo, certo? Então, os levarei até o meu mundo! Aqui começa a primeira parte da Saga em busca das Chaves do Poder: O Anel, o Espelho e o Bastão Caduceu.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Página 30
Hugo arregalou os olhos. Sentiu uma raiva apoderar-se do seu corpo. Mas se conteve.
- E o que pode ser? – berrou o furão, com a voz grossa.
- Fale baixo, Mopso – reclamou Múria, olhando para trás. – Eles não estão muito longe.
Hugo cobriu o rosto com o manto ao ver Múria olhar para trás de relance. E o retirou quando o Sr. Martus começou a falar.
- Temos dois humanos dormindo na caverna. A irmã mais nova foi levada por Mom e seus amigos. A essa altura eles até já devem tê-la entregue a Gandon – o Sr. Martus virara a cara com desdém.
Múria também virou com desprezo.
- Aqueles goblins!
Mopso fez um som agudo e rascante quando escutou as árvores balançarem com a força do vento.
- Crianças? Arre...
- Sim... crianças. Se agirmos primeiro, poderemos matá-las – avisou Múria, sorrindo.
Hugo abaixou a cabeça, confuso, entre as raízes.
- Gandon detesta crianças... – riu Mopso.
- Você sabe por que é que Gandon prende criaturas místicas e humanos no calabouço, não?
Mopso fez outro som rascante, mas o som que ele fizera não fora agudo, e sim; fraco e sussurrante.
- Claro que eu sei. E é por isso que me uni a ele. Para que ele não me force a entrar na fortaleza. E foi o mesmo que vocês fizeram há anos. Muito antes de mim, e não precisaram de nenhum motivo para se bandear para o lado dele.
O Sr. Martus pulou em cima do furão.
- Como você se atreve seu verme nojento. Você não passa de uma escória do mundo. É um ser insignificante que vive para atormentar a vida de todos.
Hugo viu os dentes da raposa quase fincarem no pescoço do furão, que se encolheu, vacilante.
- Perdoe-me, Martus! Perdoe-me... por favor! Múria, ajude-me?
- Vá e avise Gandon. Avise que as crianças estão aqui conosco e que esperamos ele vir.
- Sim... sim... é claro. Martus! – gaguejou o furão, prestando atenção nas últimas dicas que as raposas lhe davam.
Hugo se assustou. Voltou a colocar o manto velho no rosto e se afastou das raízes. Correu de volta para a caverna. Passava pelos arbustos molhados com o sereno; estava desligado demais para pensar em mais coisas, por sorte a floresta enluarada, o ajudava a trilhar o caminho de volta para a moradia das raposas malandras. Retirou o manto do rosto e não pôde e nem queria acreditar; como foram tão burros em confiar nelas. O garoto continuou a correr, não sabia se elas estavam lhe seguindo ou não. Quando chegou à caverna ele gritou nos ouvidos de Eduardo, mas o irmão não acordava. Começou então a balançá-lo para que despertasse, mas nada adiantava.
- Edu... Edu acorde... Vamos, acorde!
- O que foi mãe? Me deixa dormir mais um pouquinho. Por favor!
Página 29
Eduardo e Hugo se entreolharam. Não queriam pensar em desistir de ir buscar a irmã. Mas estavam exaustos demais para sair perambulando pela floresta à uma hora daquelas. Ainda mais com fome e cede.
- Tem muita comida e água fresca! – disse o Sr. Martus.
- Vamos. Já está anoitecendo e vocês não vão querer ficar andando por essa floresta a noite toda, não? – chamou Múria, ligeiramente calma, soltando uma vozinha suave, quase a um sussurro.
- Vocês prometem que sairemos bem cedo amanhã? – pediu Hugo, mexendo a cabeça. ugo Hu
- Ao amanhecer querido! – respondeu Múria, passando pelo mesmo lugar que saíra.
Um salto e o Sr. Martus pulara por cima das raízes das figueiras milenares brotadas para fora da terra. Eduardo e Hugo viraram o pescoço e viram as Três Irmãs clareadas com os raios do sol que, recolhia-se lentamente no horizonte.
Eduardo e Hugo seguiram o Sr. Martus e Múria até a entrada de uma caverna; uma fogueira ao lado da parede áspera ajudava a clarear o ambiente, já que ainda assim estava muito escuro. Eduardo pôde comer a vontade e matar a sua cede. Mas Hugo não parava de pensar na irmã. Olhava desconfiado, o Sr. Martus conversar em voz baixa com a esposa. Chegou mais perto como quem não quer nada e tentou escutar, mas não conseguiu; Múria se afastara do esposo rapidamente. E olhou para Eduardo de relance. O garoto dormia profundamente de cansaço. A claridade das chamas ajudavam a esquentar os pés dele, do frio que fazia lá fora. Hugo cobriu-se com um manto velho e meio rasgado que achara enfiado em um buraco e adormeceu junto com o irmão, que já estava no décimo primeiro sono.
A madrugada estava fria e Eduardo tentava cobrir-se com o pedacinho de cobertor velho. Mas não conseguiu porque era menor do que ele. A fogueira já estava quase se extinguindo e Hugo rolava no chão duro. Ainda com os olhos fechados, esticava as mãos, tentando cobrir os pés com o manto velho. O garoto do nada despertara com um barulho do lado de fora da caverna, em meio ao capinzal que circundava as árvores. Apertou os olhos fortemente e os abriu empertigado: viu a lua clarear a floresta. Levantou a cabeça, ainda deitado e não viu o Sr. Martus com a esposa, Múria, dentro da caverna. Levantou-se desconfiado e viu um vulto pequeno passar pelas árvores. Pegou o manto velho, e o enrolou envolto do corpo.
- Sr. Martus. É o senhor que está aí? – perguntou Hugo, olhando para Eduardo deitado.
E saiu da caverna.
- Sr. Martus? – repetiu ele, apoiando-se em um tronco. – Múria?
Hugo andou pela floresta, ouvindo uma voz rouca, no que parecia ser a do Sr. Martus e outra, fraca e atenciosa, que não era de Múria. Escondeu-se atrás de uma figueira, e viu o casal de raposas conversarem com um furão, entre as raízes das árvores.
- O que você quer... Martus? – resmungou o furão ligeiramente com raiva. – Por que me chamou aqui?
Hugo não conseguia ouvir direito a conversa dos três e resolveu se aproximar mais, com cautela. Colocou o manto por cima da cabeça para tampá-la e se afastou da figueira. Pisando em um pedacinho de madeira podre. Parou, olhando para os lados e recuperou- se rapidamente, com o coração na boca. E se abaixou rastejante, até as raízes das figueiras e os troncos robustos de alguns dragoeiros.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Página 28
O Sr. Martus riu da cara de Hugo.
- Do que o senhor ri?
- Ele ri da sua coragem... querido. Nunca nenhuma criatura mística ou algum humano dessa floresta conseguiu derrotar Gandon – disse Múria, paralisada. – O calabouço fica no castelo do próprio feiticeiro, que está além das montanhas. É perigoso demais entrar lá.
- E por quê? – perguntou Eduardo.
- Porque é de difícil acesso. Veem aquelas três montanhas? – e o Sr. Martus apontou o focinho na direção de três montanhas altas e imponentes, clareadas pelo alaranjado do sol.
- Sim – disseram os dois.
- O Castelo de Gandon fica logo atrás delas. Mas parece uma eternidade chegar até lá, pois há coisas monstruosas que impedem você – avisou o Sr. Martus cansado.
- São as Três Irmãs – falou a raposa fêmea.
Eduardo e Hugo viram de longe as três montanhas imponentes, uma do lado da outra, e sabiam que não seria tão fácil chegarem lá até o anoitecer. Os irmãos estavam preocupados e confusos. Agora Eduardo pensava; será que deveríamos confiar nas raposas? Hugo era o mais nervoso. Olhava para Múria como se estivesse focando os olhos em alguma estátua de um museu. As raposas rodeavam as figueiras. Soltavam risinhos entre si. Mas não foram notadas nem por Hugo que estava pensativo e nem por Eduardo que estava distraído, vendo os raios do sol refletir nas montanhas.
- O que faremos agora? – pensou Hugo, andando em círculos. – Como vamos tirar a nossa irmã de lá?
- À uma hora dessas aqueles goblins já devem até ter entregue a garota à Gandon – interpôs o Sr. Martus, parecendo não se importar com o desespero estampado no rosto dos garotos. – Já devem ter chegado ao castelo.
- Martus! – guinchou Múria, dando-lhe um sacode de chega pra lá, com o focinho. – Não diga uma coisa dessas.
- Mas não é verdade? – bradou ele, com raiva.
Hugo se adiantou. Andou para perto do Sr. Martus e disse:
- O senhor não nos disse que era quase impossível chegar lá?
- E-Eu q-quis d-dizer q-que e-é q-quase – soluçou o Sr. Martus confuso.
- Então há uma maneira de chegar mais rápido? – tornou Eduardo, inspirando uma possível tentativa fracassada de irem ao Castelo de Gandon.
Múria lhe dera outro chega pra lá, com o focinho. Tentou justificar o erro do esposo, mas ouvira um grito forte que saíra da boca de Hugo.
- Diga-nos de uma vez. É a nossa irmã que está naquele castelo e precisamos salvá-la... antes que aqueles goblins a devorem.
- Há sim, um modo de chegar mais rápido. Mas é muito perigoso e deve estar sendo vigiado por alguns capangas do feiticeiro. Ninguém se atreve a passar por lá, nem mesmo os goblins. Eles devem ter entregue a sua irmã para alguém.
O Sr. Martus não falou nada.
- Diga para que lado devemos ir! – suplicou Eduardo, andando para perto de Hugo.
- Acho que vocês precisam de uma boa noite de sono. Se quiserem, podem passar a noite em nossa casa. Não é luxuosa, mas dá para o gasto. E amanhã bem cedo partiremos todos juntos para o Castelo de Gandon. Pelo outro lado das Três Irmãs, que é mais longe, só que mais seguro.
Página 27
- Fique quieto. Deixe-me pensar... – vociferou Hugo, levando as mãos à cabeça e apertando-a com força.
Mas Eduardo não ia ceder sem brigar. Aproximou-se do muro mágico. Quando ia dar outro soco, a machadinha começou a se mexer, desprendendo-se da terra fofa. Hugo a viu rodopiar no alto e flutuar, e em fração de segundo, desapareceu, na direção onde Crisco, Mom e Trupp levaram Raquel.
- Vamos atrás deles agora – falou Eduardo, olhando para a cara do irmão.
Hugo fez uma cara de quem topava tudo, a qualquer hora e em qualquer instante.
- Se eu fosse vocês não iria atrás deles agora. Isso aqui a noite fica muito assustador – sussurrara uma vozinha suave de trás de uma figueira.
Eduardo viu um focinho preto. Hugo se afastou da árvore, e correu para o lado do irmão.
- Quem é você? – perguntou Eduardo, vendo novamente o focinho.
- Sou o Sr. Martus. Ao seu dispor! – comentou a vozinha.
E colocou a cabeça para o lado: era uma raposa, meio velha e abatida, que estava escondida atrás da figueira. Seu rabo parecia a um espanador de tão suave que era, e seus olhos tinham uma cor amarelada, que passava certa desconfiança a Eduardo e Hugo quando ela pulou de cima das raízes para o chão.
- Você é...? – Hugo se assustou ao ver uma raposa falante.
- Uma raposa? – disse o Sr. Martus, aproximando-se dos dois. – Aquela é Múria, minha esposa.
Do nada aparecera outra raposa de trás da figueira. Mas esta era mais jovem e meio magricela, bem menor que o parceiro. Com uma voz forte e melodiosa.
- Como vão crianças? – começou a raposa fêmea logo ao lado de Hugo. – Não podemos deixar de presenciar aqueles goblins levarem a irmã de vocês.
Eduardo tossiu. Olhou para os olhos negros de Múria: pareciam que estavam com certa alegria.
- Vocês a viram ser levada e nem sequer nos ajudaram? – bufou ele, certo de que vira o Sr. Martus dar um sorrisinho de meia-boca.
Múria deu um sorrisinho.
- Perdoem-nos queridos. Nós temos um lema nessa floresta; nunca confie em ninguém. Muito menos em goblins.
- Eles levaram a nossa irmã – disse Eduardo, limpando o nariz. O Sr. Martus encaminhou-se para o lado da esposa que, estava defronte para os dois garotos.
- Ó, querido. Lamento muitíssimo – falou ela, lamentando uma falsa dor.
- O que ela lamenta? – perguntou Eduardo, rosnando.
Múria abaixou a cabeça e o Sr. Martus terminou a frase da esposa.
- Ela quer dizer que é muito difícil escapar do Calabouço de Gandon.
Eduardo mexeu a cabeça. Hugo olhou para os lados. Passou a mão no cabelo e disse:
- Temos que procurar Raquel. E tirá-la daquele calabouço.
- Já irá anoitecer e vocês não vão conseguir chegar lá a tempo – indagou Múria, olhando para o céu, entre os galhos retorcidos das figueiras.
Página 26
- Hugo... não estou me sentindo bem! – avisou Raquel, passando a mão na nuca e retirando o pequeno dardo do tamanho de um dedo mindinho. – Estou...
- Agüente mais um pouco – pediram Eduardo e Hugo, juntos.
Mas Raquel largara a mão do irmão e Trupp lançara do alto a sua boleadeiras e a garota caíra no chão cheio de folhas secas.
- Hugo! – berrou Raquel, caída de bruço no chão, com a cabeça levantada para o alto, esticou a mão e tombou, desmaiada.
- Raquel... Raquel! – esganiçou-se Hugo, voltando para ajudar a irmã a se levantar.
- Raquel – Eduardo vinha correndo logo atrás de Hugo.
Era tarde demais. Mom lançara a sua machadinha a uns trinta centímetros à frente dos pés de Hugo, e abrira um muro mágico. Hugo tentou passar por ele, mas foi lançado para trás. Eduardo dava socos e pontapés para tentar destruí-lo, só que nada acontecera. E Crisco e Trupp pularam de cima das árvores, para o chão, ao lado de Mom em cima da porca verde e de Raquel desmaiada logo à frente, rente ao muro mágico.
- Não façam nada com ela – ordenou Hugo, esticando o dedo indicador. – Não se atrevam a fazer nada com ela. Entenderam?
- Raquel – choramingou Eduardo de joelhos entre o muro que os separava da irmã, imaginando, por um minuto que fosse a reação da mãe se eles chegassem sem ela na Casa de Campo. –, acorde... Vamos embora daqui!
Crisco riu escandalosamente.
- Pelo menos conseguimos capturar um. Os outros pegamos depois. Afinal, estarão perdidos mesmo pela floresta – o goblin dera um sorriso a Hugo e Eduardo. Puxou os longos cabelos aloirados da garota e riu novamente.
- Agora amarre-a... Trupp! – mandou Mom de cima da porca. – Gandon não ficará alegre, nem satisfeito em saber que capturamos somente um humano intruso.
O goblin de nariz melecado que carregava a rede foi em direção de Raquel. E jogou a rede em cima da garota e a enrolou como uma aranha enrola a sua presa.
- Raquel! – sussurrou Eduardo, passando a mão no muro mágico. Olhou para a machadinha fincada no chão, tentou agarrá-la, mas a sua mão ardeu, como se acabasse de levar uma dolorosa queimadura. – Não... por favor... não façam nada com ela.
- Suas criaturas grotescas – ofendeu Hugo, furioso. – Nojentas... feias...
Ele não sabia mais o que dizer a sua boca travou quando Crisco deu outra risada. Aproximou-se do muro mágico e disse:
- São esses tipos de elogios que fazem a nossa fama... criança.
Crisco deu um chute nas costelas de Raquel conferindo se a garota estava acordada ou desmaiada mesmo. E a empurrou, com a ajuda de Trupp, para perto da porca. Um estrondo, e, jogaram Raquel em cima do animal como um saco de batatas. A garota ficara de bruço, com as pontas dos dedos das mãos e dos pés encostando na folhagem da floresta enquanto Mom pulava nas costas dela, como se estivesse saltando em um pula-pula.
- Adeus humanos – disse Mom, sorrindo, com aqueles dentinhos pontiagudos como serrinhas.
- Tragam-na. O que vocês vão fazer com ela?
Hugo foi cortado por uma gargalhada que Crisco dera novamente ao se afastar do muro mágico.
- Raquel! Raquel! Raquel! – e Eduardo vira a irmã sendo levada pelos goblins. – Voltem aqui...
sábado, 17 de julho de 2010
Página 25
- Hugo! – chamou Eduardo esticando a mão.
Ele segurou a mão do irmão e passou por cima das raízes grossas das figueiras. Mom levantou pela terceira vez a sua machadinha, e soltou-a para o alto; o objeto começou a voar sozinho na direção dos garotos; tocava nas raízes sem nenhum esforço, quebrando-as como vidro, na qual os fragmentos se espatifavam no chão. Raquel se levantara do amontoado de folhas secas de um salto: pensou que ganhariam tempo com as raízes fechando o caminho dos goblins. Mas não adiantava nada: Crisco e Trupp escalavam as árvores rapidamente, caindo de galho em galho.
- Como viemos parar aqui? Onde estamos? – disse Eduardo, correndo.
- Aquele goblin falou que era a Floresta de Trion...
- Foi o livro que nos trouxe para cá – explicou Hugo cortando a irmã, olhando para trás e vendo Mom em cima da porca, com o rosto possesso de raiva e, Crisco e Trupp pularem pelos galhos das árvores. – Foi o Grimório...
Mom balançava as rédeas fortemente e a porca vinha correndo desembestada. E Eduardo, Raquel e Hugo passavam com dificuldades por mais raízes logo à frente enquanto a machadinha do goblin as cortava em segundos. Um grunhido forte que a porca dera, avisava que eles estavam se aproximando cada vez mais deles. Eduardo passou a mão na testa. Aproximou-se de Raquel e viu Crisco pendurado em um cipó, apontando-lhes a zarabatana em suas direções.
- Temos é que sair daqui. Procurar um lugar para nos esconder – ofegou Hugo, apavorado ao ouvir os grunhidos da porca verde.
Eduardo tentou descansar, mas não podia; os goblins estavam se aproximando cada vez mais deles.
- Será que eles não vão desistir? – Raquel tossiu ao se afastar de algumas árvores podres e falantes que, os irmãos nem ela deram muita importância.
Hugo olhou a sua frente. Notava que o barulho tomava conta da floresta. Pegou Raquel pelo braço e chamou Eduardo, que correra com todas as forças que possuía. Crisco não estava nada calmo. Parecia que acabara de ser picado por uma abelha. Seu rosto verde e sombrio por cima das árvores transmitia um medo à Raquel quando ela o encarou.
- Vem Raquel – falou Hugo puxando a mão da irmã fortemente pela floresta. – Corre. Eles estão atrás da gente.
- Eu vou pegar vocês garotos! – avisou Mom, pegando a machadinha, que voltara para as suas mãozinhas murchas.
Eduardo estava a dez passos à frente dos irmãos; abria caminho entre os arbustos e os galhos secos das árvores pequenas.
- Ai... Não agüento mais correr. Estou cansada – murmurou a garota de cara azeda.
Hugo olhou mais uma vez para trás e viu as criaturinhas verdes e nanicas saltarem pelos cipós velozmente, sem se cansarem. Mom agora cortava o vento com a machadinha. Eduardo olhou para o alto e, Raquel o acompanhou: galhos podres começavam a cair do alto para atingi-los em cheio. E Hugo viu que era o goblin que estava provocando aquilo; a sua machadinha mágica provocava aquilo e se vacilassem estariam mortos em segundos. Os goblins estavam querendo impedi-los de fugir, mas sabiam que tinham um ponto de vantagem à frente deles: Eduardo, Raquel e Hugo ao menos conheciam o lugar e estavam correndo, descontrolados e sem rumo.
- Vamos pegar vocês. Estão perdidas criancinhas insolentes – gritava Trupp do alto, dando uma gargalhada grotesca.
Raquel olhou para trás; a porca verde se aproximava cada vez mais deles, e Mom em cima, com a machadinha na mão.
- Não agüento mais. Estou muito cansada – repetiu Raquel, umedecendo os lábios.
- Vamos... corra mais um pouco. Já estamos chegando – gaguejou Hugo, desviando de uma grande pedra logo à sua frente.
- Para onde estamos indo afinal? – bradou Raquel, quase tropeçando em um buraco. – Estamos perdidos em uma vasta floresta que nem sabemos onde fica.
- Estamos na Floresta de Trion – exclamou Eduardo, olhando para o sol.
Raquel pareceu não satisfeita.
- E você ao menos sabe onde fica essa floresta? Em que território ou país?
- Não – começou Eduardo, olhando para trás e vendo os globins sorrirem para eles. –, mas sei que estamos na Floresta de Trion. Dentro do livro.
- É – disse Hugo.
Eduardo se calou.
- Você escutou eles falarem quem manda aqui, na Terra de Gandon? – lembrou Raquel reclamando.
Eduardo não soube responder.
- É o próprio feiticeiro – bufou a garota, enfadada.
- Ah, é – Eduardo suspirou sem graça.
Agora dava para ver o sol do ponto onde os garotos corriam. Por mais que estivesse sol, o clima na floresta estava fresquinho. Um cheiro úmido saía das pedras logo à frente. Raquel notara que ao lado havia uma pequena fonte. Quis beber um gole daquela água pura e cristalina, mas foi impedida por Hugo que a puxou antes mesmo de colocar a mão. Agora os goblins estavam a quase doze metros deles. Pareciam que não estavam nem um pouco esgotados com a terrível corrida que estavam fazendo. Ao contrário de Eduardo, Raquel e Hugo que não estavam acostumados a correr tanto quanto estavam correndo. Raquel não agüentava mais correr. Estava esgotada. Seus olhos reviravam de cansaço e uma forte dor de cabeça queimava os seus miolos: a garota chegara ao seu limite.
Crisco apontou a zarabatana na direção dos três. Um sopro e o dardo fora certeiro na nuca de Raquel que, sentiu o corpo mais mole do que nunca. O goblin dera um sorrisinho sarcástico ao conseguir atingir o seu alvo e Mom balançava rapidamente as rédeas da porca, que correu desembestada pela floresta o mais rápido que pôde.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Página 24
- Mas um passo e ele morre! – sentenciou Hugo, amarrando o goblin com a sua própria corda.
- Ele pegou Crisco – gritou o de cara torta, com a rede amarrada na cintura e a boleadeiras na mão murcha.
- Como você se atreve? – resmungo o goblin, amarrado.
Raquel o viu espernear. Tentava se soltar da corda, mas não conseguia. Eduardo tentava segurar a cabeça da criaturinha, só que ela estava descontrolada, arranhando os dedos dos garotos.
- Seu humano nojento – vociferou Trupp. – Temos ordens para prender qualquer humano que estiver andando pela floresta.
- Mas vocês não farão isso. Farão? – perguntou Hugo interessado.
O goblin de cima da porca deu uma gargalhada e todos o acompanharam.
- Olhe o que ele diz Trupp – sorria o que estava em cima da porca verde.
- Cala a boca, Mom! – ordenou Trupp, franzindo a testa, zangado. – Sabem que estão pisando em um terreno muito perigoso, não?
Ouviu-se outra gargalhada, mais forte e medonha que, Eduardo, Raquel e Hugo não souberam de onde veio.
- Gandon gostará de ver esses humanos.
- Eu já falei para você calar essa boca... Mom – berrou o goblin de mau humor, aproximando-se de Hugo, que estava de pé, protegendo os irmãos que, seguravam Crisco com força.
- Com quem você pensa que está falando, Trupp? Gandon pode mandar em tudo isso, mas eu ainda sou o seu líder – vociferou o de cima da porca verde. – Você me deve obediência também!
Hugo se afastou. O goblin se aproximou dele e olhou para o seu rosto: era tão pequeno que mal alcançava os joelhos do garoto.
- Quem é esse tal de Gandon?
Outra gargalhada ouviu-se na floresta. Mom quase caíra de cima da porca quando riu, segurando a barriga. Trupp também deu um risinho cínico.
- Gandon é o maior feiticeiro dessas terras – disse Crisco lançando um ar de surpresa. – A Terra de Gandon como é chamada. É ele quem manda até os Portões de Termidor, o reino da rainha Terrorínea, ao Leste e das Portas de Ertron e Garcmenon, ao Sul.
- O maior feiticeiro! – cantarolou Mom.
- Não! – exclamou Hugo protegendo os irmãos.
Trupp lançou-lhe um olhar de desconfiança. Coçou a cabeça careca e resmungou alguma coisa.
- Gandon é o senhor absoluto de tudo isso. É ele quem manda por essas bandas.
- Então diga a esse tal de Ganddy que não iremos nos entregar tão facilmente – avisou Eduardo, segurando a cabeça de Crisco.
- É Gandon, seu humano idiota. Gandon – acrescentou Trupp dando as costas para eles. – E depois de levá-los para o calabouço ele nos dará vocês e os outros prisioneiros para que possamos nos alimentar.
Hugo olhou para os lados. Tentou achar uma saída mais rápida para sair daquele lugar. Mas as raízes brotadas para fora da terra cercavam todo o caminho. Mom o olhava com aqueles olhinhos ameaçadores de cima da porca e Trupp rosnava alguma coisa que Hugo não conseguia entender direito. Eduardo pegou a zarabatana das mãos de Crisco e a jogou para o lado.
- Seu imbecil! – disse Crisco.
Hugo não pensou duas vezes: deu um chute no estômago de Trupp, que cambaleou em direção à porca, voando a boleadeiras e a rede por cima do seu rostinho de vela derretida. Mom deu um berro tão alto que soou por toda a floresta. Levantou a machadinha para o alto e mexeu as rédeas. Raquel ainda segurava as pernas de Crisco quando sentiu que aquele era o momento de fugirem.
- Vamos embora daqui! – berrou ela, puxando Eduardo e largando o goblin, que começava a se soltar da corda e avistando rapidamente a sua zarabatana.
Capítulo V - Goblins
E alguém tossiu.
- Vamos comê-los é claro – disse uma vozinha horripilante, cutucando Eduardo na barriga com uma pequena lança na mão.
- Claro que não. Temos que levá-los à Gandon. Será que você não sabe que tudo têm de passar pelas mãos dele primeiro? Depois é que ele nos dá aqueles que não são mais úteis para ele!
- Eles estão desmaiados – gritou outra vozinha, só que esta era mais rouca e mandona. –Seria muito mais fácil matá-los. Vocês não acham?
Eduardo, Raquel e Hugo estavam desacordados em cima de um amontoado de folhas secas. Depois de minutos Raquel abriu os olhos com esforço, tentou ver o céu entre as copas das gigantescas árvores, mas não deu. Levou a mão na altura da testa e viu uma carinha verde lhe dar um sorriso maldoso. E a garota dera um grito, ao levantar a cabeça e bater no queixo da criaturinha miudinha que, caiu para trás.
- Hugo... Eduardo! Acordem, agora! – pedia Raquel. Não sabia se olhava para as criaturinhas verdes ou balançava os braços dos irmãos. – Que roupas são essas?
Eduardo abriu os olhos. Tentou gritar, mas não saiu nada. A única coisa que pôde fazer foi encolher as pernas. Os três vestiam roupas rasgadas e sujas, como se estivessem ficado presos durante anos em uma cela escura e vazia.
- Quem são eles? – pergunto Hugo, vendo outra criaturinha miudinha aponta-lhe uma zarabatana.
- Cuidado, Crisco!
- Pode ficar tranqüilo... Trupp – falou Crisco, rindo. Apontando a zarabatana para Hugo.
Os três se juntaram (ainda sentados sobre as folhas secas) de costas uns para os outros. E olharam os monstrinhos verdes e cabeçudos armados até os dentes com atenção.
- Quem são vocês? O que querem de nós? – rosnou Hugo, encolhendo as pernas também.
- Estamos com fome. E vocês serão a nossa refeição – anunciou Trupp que estava com uma boleadeiras na mãozinha.
- Quem são vocês? – repetiu Eduardo; a coragem o abandonava pouco a pouco.
- Somos os goblins. Os senhores de Terr... digo... da Floresta de Trion – disse um deles em cima de uma porca verde, com malhas brancas na parte inferior do corpo. –, depois de Gandon é claro.
- Afastem-se de nós! – mandou Raquel, apontando para frente.
Crisco lhe deu um sorriso maldoso, estava a sua frente, rangendo os dentes de raiva, com a zarabatana na mão. Coçou o longo nariz torto e disse:
- Menina metida. Nojenta... insolente... feia.
Os três goblins estavam rodeando eles. Hugo sabia que seria muito arriscado sair correndo. Não conheciam nada daquele lugar.
- Vamos amarrá-los. Os levaremos para Terr... – disse o goblin de cara torta, que segurava a boleadeiras firmemente. –, digo... os levaremos à Gandon.
- Não seria melhor matá-los primeiro? Ficaria mais fácil para carregá-los! – riu o outro que estava em cima da porca verde. Segurando as rédeas fortemente, como se estivesse em cima de um cavalo.
Raquel se assustou. Eduardo viu o goblin de sorriso maldoso retirar uma corda da cintura ainda com a zarabatana na mão. Mas Hugo se jogou para o lado dando um soco no rosto da criaturinha.
sábado, 10 de abril de 2010
Página 22
Um puxão que Eduardo deu e o livro pulou em suas mãos. E o véu colorido saíra dele novamente, mas forte e brilhante do que antes. Eduardo sentiu uma coragem repentina que ele nunca sentira antes.
- Que mal tem em abri-lo?
- Não! – berrou Hugo, esticando as mãos para pegar o livro de volta, mas ele não queria sair das mãos de seu novo dono. – Não sabemos o que ele guarda.
- Hugo tem razão – concordou Raquel, vendo Eduardo forçar o trinco do livro com força.
- Vamos correr esse risco então... – disse Eduardo, mais corajoso do que nunca.
E a dor na canela passara no instante em que ele apertou o trinco, com mais força do que antes.
Hugo franziu a testa e Raquel fechara os olhos. Eduardo abriu o livro e viu um jato verde com listras brancas ricochetear pela casa, indo ate o teto e segundos depois, pairar no ar: e começou a flutuar por tudo quanto era cômodo da casa. Raquel abriu um olho, assim que viu o jato verde se transformar em um grande véu colorido. Hugo arregalou os olhos para o lado e viu a vela vermelha derretida até o meio acender do nada.
- Viu o que você fez? Feche esse livro!
- Não dá – respondeu Eduardo ao irmão.
Raquel viu sair da vela vermelha uma fumacinha misteriosa que começava a contorná-los e entrar no Grimório. Mordeu os lábios e viu o jato verde com listras brancas voltar com toda a velocidade para dentro do livro. Eduardo olhou para a escada e o gato preto continuava lá, igual a uma estátua, com aqueles olhos amarelos, fixados neles. Olhou para os lados e viu a vela apagar-se.
E Eduardo, Raquel e Hugo sentiram seus corpos flutuarem, ao desencostarem do chão – e as roupas pareciam desprender-se dos corpos deles, de forma abrupta, feito puxões desesperadores, como se alguém estivesse ateando fogo neles – e em fração de segundo foram puxados para dentro do livro. Um estampido forte e o livro se fechara, desaparecendo da sala com eles. Mais um miado, e a Casa dos Horrores mergulhou em total silêncio.