segunda-feira, 29 de março de 2010

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gralhas se assustaram com o tombo do garoto e começaram a levantar voo para o alto da casa. Hugo foi bufando ajudar o irmão a se levantar. Raquel olhou para o alto e ouviu o crocitar que elas faziam por cima das árvores e da casa. Virou o pescoço e viu a árvore seca na frente da casa se mexer com a força do vento. Os galhos encostavam na calha velha, cheia de folhas secas, fazendo um som cortante, como se parecesse a uma serra gigante, prestes a cortar alguma coisa. Eduardo veio logo atrás de Hugo que, passou por Raquel decidido. Olhou para o lado, onde o poço de pedra estava e viu quatro gralhas lhe encarando, com àqueles olhos pavorosamente amarelos, e, sobretudo sob aquele aspecto fúnebre. Mas ele nem se incomodou, colocou o pé no primeiro degrau, e ele fez um sonzinho estranho. Olhou para a varandinha e não viu nenhuma anormalidade. Somente a poeira impregnada no assoalho podre, e folhas secas amontoadas em um canto. Raquel correu para alcançar o irmão, subindo os degraus da casa. Eduardo estava distraído, olhando as duas gárgulas, com figuras grotescas, na parte saliente da calha rente ao telhado da casa, por onde a água das chuvas escoava para o poço. O garoto olhou-as rapidamente; eram duas cabeças de falcões de boca aberta.
- Pessoal o que estamos fazendo aqui? – choramingou Eduardo, subindo os degraus e indo de encontro aos irmãos, que estavam examinando a porta.
- Está aberta – surpreendeu-se Hugo, prestes a colocar a mão na maçaneta.
Raquel se assustara mais do que Eduardo ao ver a porta se abrir sozinha. Hugo foi o primeiro a entrar. Olhou para os lados e viu imensas teias de aranha no caminho.
- Há muita teia – rosnou Hugo, esticando os braços e retirando as teias da passagem.
Eduardo e Raquel entraram logo atrás de Hugo.
- Não é tão assustadora assim. Você não acha Edu? – perguntou Raquel, retirando algumas teias da boca.
- Não sei se podemos confiar – disse Eduardo, tropeçando em um balde de latão, fazendo um barulho maior que o tombo que levara na entrada.
Hugo se aproximou do que parecia ser uma cozinha e uma sala ao mesmo tempo. Viu um grande caldeirão cheio de fuligem dentro da lareira. Ele arregalou os olhos e viu tudo escuro. Colocou a mão dentro para ver se havia algo, mas caiu para trás de susto: o garoto se assustara com um gato preto que dormia dentro do objeto.
- Um gato... e ainda mais preto – Eduardo ficou trêmulo ao falar. – Isso deve ser um mau presságio.
- Olhem – pediu Raquel diante de uma estantezinha velha. –, muitos frascos.
Hugo não lhe dera atenção. Estava examinando uma vela vermelha derretida até o meio, em cima de uma caveira amarelada.
- Fisgos Sangrentos? – estranhou Raquel, fazendo uma cara de que nunca na vida ouvira nome mais esquisito que aquele. – Murtíferas... Moréias...
- Não toque em nada Raquel – avisou Eduardo, parado diante da escada de madeira. – Vamos embora daqui...
Raquel largara de lado os frascos e foi ver as máquinas de tortura feitas de madeira.
- Parece que ninguém vem aqui há anos!
Eduardo examinava um livro sujo que pegou do lado da escada com atenção.
- Olhem isso aqui. É um livro de poções.
Hugo puxou o livro das mãos do irmão e leu a capa com atenção:
- SUEÑOS PROFUNDOS! – disse ele, sacudindo-o para retirar a poeira.
Hugo bocejou alto, sentou-se no primeiro degrau da escada. Raquel rodeou os irmãos.
- Há coisas horríveis aqui – resmungou Hugo, virando a página.
Os três escutaram um miado. Viram o gato preto no alto lhes olhar fixamente. Eduardo se apavorou mais ainda. Olhou novamente para cima e não o viu mais. Torceu o pescoço e viu Hugo e Raquel lerem com atenção o livro de poções. Ele passou pelo irmão sentado no degrau e foi para cima. Pisando devagarinho pelos degraus da escada, que contornavam a parede suja. Olhou para o alto e lá estava novamente o gato miando.
- Vem cá. Vem cá bichinho! – chamou ele, esticando a mão.
O gato correu e entrou em um quarto vazio. Eduardo saiu em disparada e o seguiu.
- Gatinho... gatinho. Vem cá – chamou novamente o garoto, entrando no quarto.

Capítulo 3 - A CASA DOS HORRORES

Quase uma semana havia se passado depois do Natal. Eram sete e dez da manhã e Eduardo estava no quarto com os irmãos, sentado em cima da cama. Hugo o olhava com desconfiança, e ele, já sabia do que se tratava. Mas lhe faltava coragem. Por três vezes ele parou diante do alambrado que divide as propriedades, mas acovardou-se no meio do caminho. Raquel já estava farta de ver o irmão amarelar. O garoto abriu a janela para não olhar para os irmãos; preferiu ver os raios do sol, a encará-los mais uma vez. Abriu a palma da mão e a colocou na altura da testa. De longe ele viu a casinha de madeira das bruxas, logo atrás da árvore seca, com o tronco parecido a um rosto melancólico.

- É um tédio só, ficar aqui dentro dessa casa – disse Hugo da cama. Raquel andara na direção de Eduardo parado diante da janela.

- Nem tudo – riu a garota, olhando para a Casa dos Horrores.

Hugo deu um salto da cama e foi até a janela.

- Você tem razão. Vamos tomar o café da manhã e depois vamos para lá.

- Ah, não... de novo não... – gaguejou Eduardo corando.

- Ah, sim – discordou Raquel, com uma crescente sensação de ânimo.

Eduardo só viu Hugo puxar a sua camiseta em direção à porta: o garoto dera um tapa nas mãos do irmão e o seguiu até a cozinha com Raquel ao seu lado. Lá tomaram o café da manhã. Hugo praticamente engolira o seu e a Sra. Mafalda o olhava de relance, dando certos olharzinhos de desapontamento. Mas o garoto nem se incomodou.

Eduardo comia igual a um passarinho: de grão em grão. Não estava a fim de sair com os irmãos para a Casa dos Horrores. Mas quando ele se virou recebeu uma cutucada de incentivo, nas costelas. Olhou para o lado e viu que era Raquel. Há encarou por alguns instantes e se virou, comendo mais depressa.

- Pra onde vocês vão? Não corram dentro de casa entenderam? – falou a Sra. Petre ríspida.

A mulher os encarou. Mas eles só falaram, juntos:

- Vamos passear por aí!

Os três desceram a escada. Contornaram a casa, passando pela árvore de mogno ao lado da janela e, foram-se para a mais distante, onde o balanço de pneu estava. Eduardo parou e viu o sol brilhar como uma esfera ofuscante no céu. Olhou para baixo e viu que a distância entre a Casa dos Horrores e ele diminuía a cada minuto. Voltou a olhar para o sol e virou o pescoço para ver a Casa de Campo. Escutou uma voz lhe chamar e, voltou a olhar a casa mal-assombrada. E Raquel sorria com Hugo ao ver a reação do irmão.

- Acho que é... melhor eu ficar aqui de guarda.

Hugo e Raquel encararam o irmão.

- Está bem. Se você quiser ficar aí sozinho? – disse Hugo.

- Está muito longe de casa se você pensa em voltar – completou Raquel, serenamente.

Eduardo escorregou nas palavras. Viu o irmão passar pelo alambrado e ajudar Raquel a passar. Virou novamente o pescoço para a Casa de Campo indeciso e, viu os irmãos andarem para a Casa dos Horrores.

- Esperem, eu vou com vocês! – gritou ele, descendo a ribanceirazinha íngreme e passando pelo alambrado. – Me esperem aí...

- Tsk – sibilou Hugo, tentando não chamar a atenção das gralhas perto do poço de pedra ao lado da casa.

- Ué? – espantou-se Eduardo, levantando as mãos na altura das costelas.

- As gralhas – apontou Raquel para o poço.

Eduardo olhou para o poço e tentou correr para o lado dos irmãos, mas foi impedido por um pedaço de raiz. O garoto cambaleou, até cair no jardim, em cima das flores podres. As

quarta-feira, 24 de março de 2010

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badalava de longe. Raquel se aproximou da janela e a abriu. O céu estava ficando escuro. O canto dos pássaros soava da árvore onde eles estavam brincando logo de manhã cedo, quando a mãe apareceu na janela. Eduardo consultou o relógio e ficou ainda mais ansioso quando viu que já eram quase oito da noite. Nem notaram que o tempo havia passado tão depressa; as horas pareciam passar rapidamente quando se está no campo.
Hugo sentiu um cheirinho bom vir da cozinha. Era pernil assado. Raquel não agüentava. Mordia os beiços de ansiedade. Afinal, o natal já estava se aproximando e mais uma vez Eduardo poderia comer tudo o que ele quisesse.

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Eduardo ergueu o dedo indicador, apontou no rosto da irmã e sussurrou:

- Veremos então.

Quando chegaram à frente da casa colonial, viram a mãe parada na varanda e tia Klara a seu lado sentada em uma cadeira de balanço. A velha arregalara os olhos contra a luz do sol para vê-los melhor. Hugo não sabia se o que ela fizera com os olhos fora para dar-lhe uma piscadela ou foi mais um olhar de desconfiança. Eduardo sentou-se com Raquel nos degraus da escadaria e Hugo encostou o corpo em uma das pilastras. Olhou para o rosto da mãe e esperou alguma reação dela.

- Onde vocês estavam?

- No balanço velho – Raquel se adiantou em responder.

Tia Klara olhou para Raquel.

- E a curiosidade foi tanta que não resistiram em ir ver a Casa dos Horrores?

Raquel olhou para Eduardo, vacilante. Ela franziu a testa para a tia, mas não a contradisse. Então a velha continuou:

- Também gostava de ir lá. Era um refúgio para mim quando papai queria me castigar – explicou tia Klara rindo para eles e se balançando na cadeira de balanço. – É admirável como ela ainda continua de pé. É espetacular!

Eduardo limpou o nariz com os dedos sujos.

- E a senhora não tinha medo?

A Sra. Petre olhou para o filho. Mas tia Klara a interrompeu dando uma gargalhada gostosa.

- Que foi? A senhora nunca teve medo? Gabriel nos contou uma história muito...

- Verdadeira – Hugo foi cortado pela tia. – Mas isso já faz muitos anos. Eu adorava quando vovô contava. Mas com o passar dos anos essa história foi sendo esquecida e o fato de que as irmãs Farrow existiram foi transformada em uma pequena lenda de povoado.

- Mas a senhora não acredita nisso não é? Elas existiram mesmo? – perguntou Hugo sem ao menos tirar os olhos da velha.

- Se não fosse verdade porque o povo tem medo de entrar na Casa dos Horrores? Por que você acha que colocaram esse nome nela? – respondeu a tia rapidamente.

A Sra. Petre assentiu sem graça.

- Para essa cidade ter algo que contar? – tornou Eduardo, mexendo os ombros.

- Pode ser também. Mas acreditem: as irmãs Farrow existiram e eram bruxas cruéis.

Raquel arregalou os olhos e a Sra. Petre cortou o assunto.

- Agora chega de histórias de bruxas, não? Vão lavar as mãos para poder almoçar.

Hugo foi o primeiro a passar por elas e Raquel e Eduardo correram para alcançá-lo.

- Está gostando querida? – perguntou tia Klara à sobrinha. – Como se sente longe da cidade?

A Sra. Petre se virou e segurou a mão da tia.

- Nunca vou me esquecer de tudo o que a senhora está fazendo por mim. De ter me acolhido em sua casa de braços abertos. Ainda mais com meus três filhos.

- Érina era minha única irmã. A minha maninha caçula. Eu a amava demais e nunca consegui superar a sua morte – disse a tia. – Não iria deixar a filha e os netos dela sozinhos no mundo.

- Klara? – falou a Sra. Mafalda da porta. – O almoço já está sendo servido.

- Obrigada, Mafalda – agradeceu à velha, balançando a mão.

Todos almoçaram o delicioso banquete que a Sra. Mafalda preparara. Eduardo olhava os irmãos atentamente: sentia um arzinho de mistério em seus rostos. Pensou por um instante, mas sabia que os irmãos queriam que ele fizesse o que havia prometido. “Mas como entrar naquela casa velha e assustadora? Como entrar na casa que pertenceu a duas bruxas que assassinaram várias crianças?”, disse ele para si mesmo.

Eduardo andou atrás de Hugo e Raquel para a biblioteca. Fora o balanço de pneu e agora a Casa dos Horrores, só havia outro lugar divertido naquele lugar: a biblioteca da Casa de Campo. Hugo não agüentava ficar escutando o canto dos pássaros. Estava acostumado com o barulho da cidade; da buzina dos ônibus e dos carros e até mesmo do sino da igreja que quando dava meio-dia

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- É a casa abandonada mais assustadora dessa redondeza – avisou Gabriel, subindo a ribanceirazinha. – Hã... não se esqueçam que ao meio-dia o almoço será servido.
Eduardo viu Gabriel se afastar deles. Ficou encucado com as palavras assustadoras que o garoto falara da Casa dos Horrores. Hugo e Raquel eram os únicos que sentiam uma possível aventura fluir no ar. Não estavam com medo da casa velha nem das palavras de Gabriel. Estavam convencidos em saber mais um pouco sobre as irmãs Farrow.


O sol de meio-dia ficava cada vez mais forte. Mas Eduardo ficou ali, com os irmãos, perto do alambrado, observando a casa das bruxas. Olhavam-na fixamente; parecia que alguma coisa os atraia para dentro; talvez fosse por isso que ninguém se atrevia a chegar perto dela. E Raquel olhou para o poço e viu centenas de gralhas, negras como a noite, com aqueles olhos amarelos como o sol, fixados na casa. O som que elas faziam assustava cada vez mais Eduardo que, estava atrás de Hugo e de Raquel. A árvore seca e sem vida em frente a casa não parava de mexer os galhos com a força do vento. Tudo ao redor era morto e vazio. As árvores em torno da propriedade antiga estavam com os galhos secos e retorcidos para baixo, as flores do jardim estavam podres e murchas, e a terra seca e empedrada como um deserto. Ao contrário do lado onde eles estavam; um campo verde e florido.
- Vocês não vêm? – repetia Eduardo a toda hora. – Se vocês quiserem ficar aqui tudo bem. Mas eu vou embora!
Hugo pensou por um instante. Olhou a casa novamente e agarrou a mão de Raquel para ajudá-la a subir a ribanceirazinha.
- Eu não sei o que vocês viram nessa casa horrorosa. O nome mesmo já diz: Casa dos Horrores. Sabe... eu não vi nada de interessante nela...
- Não seja tão modesto... Edu. Eu sei que você se interessou pela casa mais do que a gente nela – cortou Hugo, passando com a irmã pelo balanço de pneu.
Eduardo estremeceu ao falar.
- Eu? Vocês estão loucos ou o quê? – ofegou ele. – Vocês ouviram o que Gabriel falou: afastem-se daquela casa.
- Ele não falou exatamente isso – corrigiu Raquel, soltando a mão de Hugo e esmurrando o vento. – Ele disse apenas; é a casa abandonada mais assustadora dessa redondeza.
Eduardo a encarou e resmungou:
- Mas mesmo assim. Não podemos ir lá.
O pouco de ânimo que Raquel sentira despencou.
- Ei... espera aí... eu sou uma menina e não estou com tanto medo quanto você. Eduzinho da mamãe.
Hugo riu.
- Não estou com medo! – disse Eduardo, rangendo os dentes.
- Está sim – zombava Raquel, tentando alcançar as orelhas do irmão para lhe dar um beliscão. –, olha a sua cara.
Eduardo ficou calado.
- Inho... inho... inho... o Eduzinho tem medinho – cantarolavam Raquel e Hugo.
Eduardo parou bufando. Olhou no rosto dos dois e disse:
- Eu não estou com medo e eu vou provar para vocês!
Hugo franziu a testa. Raquel virou o pescoço.
- Aquela casa nem causa tanto medo assim. É somente uma casa velha e abandonada.
Eduardo pareceu satisfeito em botar tudo para fora. Encarou mais uma vez os irmãos e se virou.
- Acalme-se... é véspera de natal. Se você não se comportar sabe que não ganhará presente do papai Noel.
As bochechas de Eduardo ficaram vermelhas.
- Quero ver se você vai ter coragem de entrar. Sabemos que você não é de nada! – avisou Hugo, rindo. – Não é mesmo Raquel?
A garota mexeu os lábios para indicar um sorriso.
- Acho que você tem toda a razão. Ele nunca foi de nada mesmo!

quinta-feira, 18 de março de 2010

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- Parece que ninguém vai lá há anos! – exclamou a garota, olhando para o rosto pálido de Eduardo. – Será que é uma casa mal-assombrada?

Eduardo se afastou do alambrado. Franziu a testa e disse:

- V-Vamos e-embora d-daqui e-então!

- Está com medo da casa mal-assombrada Eduzinho da mamãe? – perturbou Hugo, quando escutou um grito, pensando ser de Eduardo, mas era de Gabriel lhes chamando.

Eduardo respirou mais aliviado.

- O que fazem aqui?

- Estamos admirando essa casa velha – resmungou Eduardo. – Você não está vendo?

O garoto desceu a ribanceirazinha e se aproximou dos três.

- A Casa dos Horrores? – falou Gabriel. – Há rumores de que ela seja mal-assombrada.

Eduardo franziu agora o rosto.

- Casa dos Horrores? – repetiu ele. – Agora você vai me dizer que essa casa velha tem até um nome?

- Sim. Pertenceu as irmãs Farrow. Duas bruxas que foram mortas na fogueira há quase dois séculos por ordem dos fazendeiros locais – começou Gabriel apoiando o cotovelo na cerca.

Hugo e Raquel pareceram interessados e envolvidos na história, já Eduardo não estava nem um pouco alegre de estar perto da casa das irmãs Farrow.

- Então é uma casa mal-assombrada? – tornou Hugo com sensatez.

- Uns dizem que é. Agora outros afirmam que é só uma casa abandonada – concluiu Gabriel, fazendo ar de mistério. – Mas mesmo assim, ninguém se atreve a entrar lá dentro.

Raquel gemeu.

- Você já entrou lá?

Gabriel fez um sinal meio confuso com a cabeça.

- Já cheguei até a porta. Mas não consegui ir além disso.

- Vamos embora! – pediu Eduardo.

Hugo estava interessado em saber a verdadeira história das irmãs Farrow. Nem deu importância para Eduardo. Então ele continuou:

- E porque elas morreram queimadas na fogueira?

- Por que mataram várias crianças. Entre elas os filhos de alguns dos fazendeiros locais.

Eduardo deixou escapar um grito sufocado de desespero.

- Dizem que o tataravô da Sra. Oliveira foi o cabeça de tudo. O Sr. Homero Braga. Um homem enérgico mais muito misterioso. Dizem que era extremamente ligado as velhas tradições. Foi ele quem comandou a perseguição as bruxas.

Raquel arregalou os olhos.

- E como elas se chamavam?

- Circe e Holda Farrow!

Os três prestaram atenção no que Gabriel falava. Então ele recomeçou:

“Muitos dizem que quando ficavam fracas, sugavam a vitalidade das crianças. Por serem fortes e joviais. Em ano e ano elas cometiam atrocidades por onde passavam. E foi por isso que os fazendeiros as queimaram. Porque não queriam mais ver os seus filhos serem mortos pelas bruxas.”

- Só que isso já faz quase dois séculos não é mesmo? – choramingou Eduardo. – Eh... não tem perigo de acontecer nada... não é?

Gabriel deu uma risadinha.

- Elas morreram a quase dois séculos. Você não quer que elas voltem?

- Não... não quero que... elas voltem – gaguejou o garoto, olhando para os lados.

- Uma vez a pessoa morta sempre morta! – corrigiu Hugo, tentando amenizar o pavor estampado no rosto do irmão.

- Não – discordou Eduardo com um berro só. – Fantasmas também existem você não sabia?

Raquel e Gabriel ficaram calados.

- Agora você quer vir me dizer que essa casa velha não é mal-assombrada? – ganiu Eduardo, erguendo a cabeça.

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- Está bem... Está bem! Tome mais uma fatia...
Hugo engoliu em seco e voltou a comer.
- Empadão – exclamou Raquel esticando a mão.
Depois de quase meia hora a Sra. Mafalda retornara com uma caixinha de fósforo nas mãos e Gabriel vinha do lado contrário com outra.
- Já acendi as velas vovó – disse Gabriel, passando pela mesa e indo até a cozinha. – Acho que os geradores queimaram novamente.
- Obrigada filho – agradeceu à velha, acendendo todas as velas que estavam nos candelabros da copa.
Eduardo estava empanzinado. Não agüentava comer mais nada. A boca de Raquel estava cheia quando falou com Hugo. Não demorou muito e a Sra. Petre apareceu na copa, com tia Klara segurando a sua mão.
Lá fora não se ouvia mais o canto dos pássaros e nem o barulho do vento. Agora escutava-se o zumbido dos mosquitos. A lua estava cheia e nunca Eduardo, Raquel e Hugo viram um céu tão estrelado como aquele na cidade.


No dia seguinte a Sra. Petre acordou bem cedo. Ao abrir às cortinas a mulher se assustou em ver os filhos brincarem de esconde-esconde. Ela abriu a janela e inspirou profundamente. Sentiu um ar fresco penetrar as suas narinas e apoiou os cotovelos no parapeito da janela, observando atentamente os filhos rindo, embaixo de uma árvore. Os três estavam tão distraídos que nem notaram a presença da mãe no alto, olhando para eles.
Hugo se virou para Raquel e começou a fazer cócegas na barriga da irmã.
- Não... ai... não... Hugo! – ria Raquel.
Eduardo parecia impressionado.
- Mamãe!
Pela primeira vez os garotos viram a mãe sorrir.
- Já tomaram o café?
- Sim – respondeu Raquel, rouca de tanto rir.
Eduardo e Hugo disseram sim com a cabeça e viram a mãe sair de perto da janela.
- Raquel! Aonde você vai. Vem para cá – berrou Hugo, correndo atrás da irmã. Eduardo tropeçou em um morrinho de terra e seguiu os irmãos.
Raquel fora correndo para o grande carvalho verde, nos limites da propriedade, onde o balanço de pneu estava. Os galhos e o capinzal amarelo não paravam de balançar com a força do vento quando eles se aproximaram da árvore.
- Que balanço legal – disse Raquel com um sorriso eufórico.
Ela lançou um olhar atento aos irmãos, como se esperasse que eles dissessem alguma coisa, mas eles continuavam calados, por isso ela recomeçou:
- Qual é? Vocês não vão me balançar?
- Hã – disse Hugo, levantando a sobrancelha direita.
Raquel se espreguiçou em cima do balanço.
- Bem forte.
Eduardo e Hugo deram risadinhas.
- Se prepare então! – sugeriu Eduardo animado.
E os dois começaram a balançá-la fortemente.
- O que é aquilo? – perguntou Raquel indicando com o dedo, ainda em cima do balanço.
Eduardo e Hugo pararam de balançar e viram Raquel correr novamente sem rumo. A garota desceu uma ribanceirazinha, quase caindo de cara no alambrado que dividia um terreno do outro.
- Aquela casa velha. Parece estar abandonada – falou Raquel certa de que a casa não tinha dono.
- Parece abandonada mesmo – repetiu Eduardo se aproximando cada vez mais do alambrado.
- O que será que guarda? – perguntou Hugo curioso.

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um velho magro, que lembrara muito a Eduardo uma lombriga branca e esquisita. A única foto que ele não viu foi a da sua avó, Érina, a irmã de tia Klara.

Eduardo pareceu ouvir a voz da mãe. Um eco sobressaiu pelas paredes e ele correu para alcançá-la. Quando viu que todos se aproximavam da porta da biblioteca.

- Onde você estava? Não se afaste de mim entendeu? – vociferou a Sra. Petre de meia-boca.

Eduardo virou os olhos de tédio.

- Klara? – disse a Sra. Mafalda abrindo a porta. – Olhe quem chegou?

- Elizabeth... Elizabeth... é você minha sobrinha? – perguntou tia Klara ansiosa da poltrona. – Venha até aqui.

A Sra. Mafalda fez um sinal com as mãos para a Sra. Petre entrar. Hugo balançou a cabeça e entrou logo atrás dos irmãos.

- Tia – choramingou a Sra. Petre. – São só por alguns meses. Até eu acertar tudo...

- Meus pêsames pelo o que aconteceu com Edgar – disse tia Klara, estendendo as mãos e abraçando a sobrinha com força. – Aquele biltre inglês não te merecia. Mas não se preocupe que agora vocês não estão mais desamparados.

- Ele não agüentou tanta pressão e se ma...

- ... não falemos mais disso, ok? – cortou a velha. – Hugo... Eduardo... Raquel. Como vocês cresceram. Não enxergo direito, mas vejo que estão maiores do que eu. Será impressão minha?

Eduardo dera um abraço na tia. Há olhou dos pés à cabeça, sem que fosse notado pela Sra. Mafalda que, choramingava da porta. Sinceramente aquela não era a forte e vigorosa tia Klara dos retratos no corredor de entrada. Agora via-se uma velha debilitada e quase cega. Os cabelos cor de algodão estavam presos em um coque alto. E as mãos brancas e pálidas, tremiam ao abraçar o garoto e estava bem magra, comparada há anos.

- Estão com fome? – perguntou tia Klara dando um sorriso.

Hugo fez um sinal com a cabeça. Mas Raquel se incomodou em falar um sim.

- Mafalda. Leve-os para a copa e prepare um lanche para eles. Depois traga chá com biscoitos para Elizabeth e para mim. Por favor! – disse tia Klara roucamente, voltando a se sentar na poltrona.

Tia Klara indicara o sofá logo à sua frente e a Sra. Petre se acomodou nele, com o rosto levemente corado ela escutava atenciosamente a tia conversar com ela.

- Venham queridos – chamou a Sra. Mafalda, fechando a porta da biblioteca. – Aposto que estão com fome, não?

- Sim – disseram os três juntos, automaticamente.

Os três seguiram a velha por um corredor longo e estreito. Onde havia centenas de salas. Uma maior que a outra. Quando chegaram à copa viram a empregada colocar compotas na longa mesa envernizada. Os olhos azuis de Raquel brilharam em ver tanta comida gostosa. E Eduardo correu e arranjou uma cadeira perto do bolo de chocolate com calda quente no meio e Hugo dos pastéis de forno. Raquel se conformou em ficar perto das tortas de limão e maçã.

- Cilene! Depois leve chá com biscoitos para a biblioteca está bem? – falou a velha governanta para a empregada que, acabara de colocar o último vidro de compota na mesa.

A mulher fez que sim com a cabeça e saiu da copa junto com a Sra. Mafalda, que dera um belo sorrisinho aos três.

- Parece delicioso esse bolo de chocolate com calda quente no meio – afirmou Eduardo animado, pegando um pedaço gigantesco e o colocando no seu prato.

Hugo esfregou o nariz.

- Pastéis de Romeu & Julieta. Hmmm.

Raquel deixou sair um gritinho e passou a mão em um pão e o encheu de doce. Olhou para os lados e o abocanhou.

- É tudo muito gostoso – ofegou Eduardo olhando para os irmãos. – Sucos!

- Me passa um pedaço desse bolo, Edu – pediu Hugo ríspido, estendendo o prato na direção do irmão, que o encarou de cara azeda e, cortou uma fatia do bolo de chocolate com calda quente no meio.

Hugo ergueu a cabeça. Eduardo hesitou.