sexta-feira, 2 de abril de 2010

Página 17

de ferramentas. Eduardo ficou sentado a uns três degraus acima do qual Hugo ficara há minutos. Olhava a Casa dos Horrores atentamente. De um lado reinava o grande caldeirão fuliginoso dentro da lareira, e do outro lado o armário de vassouras. Quando olhou para o teto, viu buracos no telhado (de certo eram as gralhas que fizeram aquilo quando estavam uriçadas com algum bicho, já que ninguém se atrevia a entrar na casa) e esticou ainda mais o pescoço; as colunas de madeira que sustentavam a casa estavam podres, cheias de cupins. E ele não via a hora de tudo aquilo desabar sob suas cabeças. Ele voltou a olhar para os irmãos; Hugo estava com a cabeça em uma guilhotina, rindo com Raquel que, caía na gargalhada. Por sorte não havia nenhuma lâmina cortante na arma.
Eduardo sentiu um alívio no coração. Fora o gato ter lhe dado um baita susto. Não havia nada na casa que pudesse assustá-lo. Lembrou-se do papo que os irmãos e ele tiveram com tia Klara há quase uma semana. A velha lhes falara sobre as irmãs Farrow e que eram bruxas cruéis. Mas ele achou que a tia exagerara um pouco quando falou das irmãs e da Casa dos Horrores.
Eduardo viu Hugo subir em uma escada de gancho que estava no canto, perto da lareira, e Raquel o seguiu. Ele não perdeu tempo e voltou a subir a escada.
- Será que tem algum retrato por aqui? – perguntou Hugo, tentando abrir uma porta velha, com a maçaneta torta. Logo ao lado da qual Eduardo ficara preso. – Ou um auto-retrato, sabe?
- Retrato de quem? – retorquiu Eduardo com frieza. – Das irmãs Farrow?
- De quem mais seria? – zombou Raquel, enjoada.
Hugo estremeceu.
- Está vendo alguma coisa... Hugo? – disse Eduardo desconfiado.
- Espere! – gemeu o irmão em resposta.
Raquel deu uma empurradinha na porta. Hugo a olhou mais rancoroso do que nunca.
- Espere eu já disse.
- Pessoal... já deve ser quase meio-dia – reclamou Eduardo com o rosto avermelhado; o
garoto passou a mão na franjinha e inspirou profundamente.
Hugo entrou na sala e só viu um amontoado de tralhas velhas. Caix otes e mais caixotes de madeira empilhados uns em cima dos outros, com frascos de todos os tipos e tamanhos dentro. Alguns cheios e outros pela metade com líquidos coloridos e brilhantes. Raquel pegou um, que continha um líquido azulado, retirou a rolha e o cheirou.
- Largue isso! – mandou Hugo, vendo escrito no vidro: Poção dos Três Poderes.
Raquel se assustou ao levar um tapa na mão e deixar cair o vidro. Eduardo arregalara os olhos, mais claros que os da irmã. Quando o frasco encostou no chão transformou-se em areia; fina e suave, que esparramou-se pelo assoalho sujo e rachado.
- Viram isso? – engasgou Hugo, esquivando o seu longo corpo para o canto. – Virou areia. Como pode uma coisa dessas?
- Eu não sei – respondeu Raquel, esfregando a mão com a que estava arranhada pelo gato. – Vamos ver de novo.
A garota agarrou outro frasco. E olhou o líquido verde.
- POÇÃO DA VIDA ETERNA – Raquel retirara a rolha e jogou o frasco contra a parede. – Essa... VANITAS VANITATEM.
Eduardo se esquivou. Mais veloz que Hugo. E viu sair do vidro raios de luz prateada em direção oposta da deles. Gritando de desespero. Como se alguém estivesse correndo de uma pessoa que queira lhe fazer algum mal. Os três tamparam os ouvidos e viram os raios de luz prateada vir a seus encontros. Raquel se agachou. Ainda com as mãos nos ouvidos. Ao trasformarem-se num jato, o mesmo colidiu contra a parede, desaparecendo do quarto.
- É melhor deixarmos isso para lá – propôs Eduardo, olhando para os caixotes.
- Acho que eram nesses frascos que as bruxas guardavam...
- ... a vitalidade das crianças – completou Hugo, interrompendo a irmã.
Hugo se permitiu um sorriso de alegria.
- Por isso que elas só matavam quando estavam...
- ... ficando velhas? Afinal, elas guardavam um estoque aqui dentro – disse Raquel.
Raquel tentou rir entredentes.
- Sim. E esse estoque não foi usado...

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