sexta-feira, 2 de abril de 2010

Página 16

Havia apenas um guarda-roupa e uma cama semi-acabada no quarto: serviam de moradia para os camundongos da casa. Eduardo procurou o gato pelo quarto inteiro e ele não estava lá. E o rosto do garoto ficou estupefato por não ver o animal ali dentro.

- Onde você está? – perguntou, sentindo-se a cada minuto mais idiota. Aproximou-se da janela e viu os galhos secos da árvore podre encostarem no telhado. – Vem cá... gatinho.

Eduardo vira o gato do lado de fora da casa arregalar os olhos amarelos na direção dele, iguais aos das gralhas. Só que maiores e mais medonhos. Quando o garoto virou o corpo para a janela, para tentar alcançar o gato, a porta se fechou com um baque. E ele pensou que ficaria – por um momento que fosse – trancafiado para sempre no quarto. Tocou na maçaneta, mas a porta não queria abrir. Um rosa coloriu as suas bochechas que, ficavam cada vez mais coradas. Começou a gritar para que os irmãos o pudessem escutar. Só que nenhum sinal deles.

- HUGO... RAQUEL – berrava Eduardo apavorado. –, abram essa porta. Ajudem-me. Por favor.

E continuou a gritar. Olhou para trás e pensou que viu pela janela um rosto entre a árvore podre. Mas quando fechou e abriu os olhos em um estalo – querendo não ver nada – novamente viu que era o buraco no tronco, parecido com uma boca grande e deformada, com dois buraquinhos menores na parte superior, no que pareciam indicar os olhinhos tristes da árvore. Os galhos se mexeram com a força do vento e davam a impressão de que, estavam se movimentando, vindos de encontro a ele. Eduardo virou-se novamente, encostando as costas na porta e a mão na maçaneta.

- Edu... cadê você? – dizia Hugo baixinho.

Eduardo, que ficara muito pálido, murmurou alguma coisa apática.

- Sim. Estou aqui. A porta se trancou sozinha.

- Sai de trás dela – disse Raquel.

Um pulo para trás e Eduardo viu o irmão mexer a maçaneta com força e dar um empurrão com o corpo. Outro empurrão e a porta se abriu.

- Você está bem? – sibilou Hugo.

Eduardo pareceu chocado e ao mesmo tempo trêmulo.

- Claro. Por quê? Parece que estou mal?

Raquel viu um ar encorajador se apoderar do irmão.

- Deve ser o vento que a trancou.

Eduardo urrou. Apontou o dedo para os pés de Raquel e disse:

- F-Foi e-ele q-quem f-fez i-isso!

- Quem fez isso? – disse com rispidez a irmã.

- O gato? – disse Hugo.

Raquel deu uma risada abafada.

- Esse gatinho – começou ela, pegando o gato no colo. – Ai!

O gato lhe dera um arranhão na mão e ela o largara novamente no chão.

- Você está bem? – falou Hugo se desesperando.

- Raquel! – ofegou Eduardo.

Raquel apertou as costas da mão quando viu Hugo afugentar o gato preto.

- Não se preocupe Edu. É só um arranhãozinho de nada – gemeu a garota.

- Vem – mandou ele, segurando o ombro da irmã. Onde está o gato?

Hugo vinha ao encontro dos irmãos. Olhou para a mão de Raquel e esperou uma reação de ambos.

- Estou bem. Foi só um arranhão!

- O gato sumiu – avisou Hugo encucado.

- Não é a primeira vez. Será que vocês não entendem que essa é a sua casa e ele quer que a gente saia dela – disse Eduardo finalmente. – E é o que vamos fazer agora mesmo!

Raquel não respondeu.

- Aquele gato parece um fantasma. Sempre que nos aproximamos dele, ele desaparece.

Hugo foi o primeiro a descer pela escada de madeira e Raquel em sua cola. Eduardo olhou de relance para o quarto e a porta se fechara com outro baque.

A garota mexera na vela velha que estava pregada em cima da caveira descarnada e Hugo em um armário onde havia duas vassouras de palha, sujas, com teias de aranha e um balde cheio

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