terça-feira, 6 de abril de 2010

Capítulo IV - GRIMÓRIO

- Eu vou pegar vocês. Ah... vou.
Eduardo correu para um lado e Hugo para o outro enquanto Raquel tentava agarrar um dos dois.
- Não está mais com medinho Eduzinho? – murmurou Raquel ao ver Eduardo desviar dela.
- Raquel? – Hugo descera pela escada de gancho, perto da lareira.
- Hugo! – gritou Eduardo desesperado ao lado da irmã.
A escada de ganchos se soltara da madeira podre e Hugo se equilibrou no alto para não cair. Raquel puxara a mão do irmão com força e Eduardo desceu a escada de madeira. Descia com tanta força nos pés que se confundia a um cavalo chucro.
- Estou bem! – berrou Hugo descendo a escada de gancho. Raquel continuava a segurá-la para que o irmão pudesse descer em segurança.
Eduardo parou em um degrau anterior, no qual estava sentado. Quando colocou o pé em cima do degrau ele afundou. Tentou tirar, mas não pôde. Tentou puxar a perna com os dois braços, mas o seu sapato estava preso entre as farpas da madeira.
- Me ajudem! Por favor!
Raquel correu para ajudá-lo. Largou a escada e desceu pela outra. Hugo foi andando depressa. Tentava acalmar o irmão. Mas era em vão; Eduardo estava aflito em ver o pé preso entre a madeira podre.
- Raquel. Você empurra e eu solto – Hugo conferia o pé do irmão.
- Está doendo! – choramingou Eduardo.
- Não é melhor a gente tirar esses pedaços de madeira primeiro? – sugeriu a garota, segurando os ombros do irmão que não parava de choramingar de dor. – Acho que assim doeria menos. Você não acha?
Hugo olhou para Raquel.
- Espera aí!
- Uma farpa entrou na canela dele. Por isso está doendo! – disse Raquel sacudindo os ombros.
Eduardo tinha o ar abatido.
- Está doendo!
- Agüenta mais um pouco! – pediu Hugo, quebrando um pedaço da madeira com a ajuda da irmã.
Eduardo olhou para cima e viu o gato preto miar. Seus olhos amarelos o encaravam como se quisesse lhe dizer alguma coisa. E os olhos do garoto cheios de lágrimas encontraram os do animal. A cada miado que ele dava o garoto sentia uma dor insuportável. Voltou a olhar para os lados e viu Raquel ajudando Hugo a trazer um machado todo enferrujado do armário de vassouras e os dois começavam a quebrar a madeira ao redor de sua perna. Quando voltou a olhar para cima não viu mais o gato. Olhou para os lados e nada. Viu a vela vermelha derretida até o meio, em cima da caveira amarelada e descarnada arder lentamente. Deu uma piscadela e lá estava o animal. Deslizando entre os móveis velhos. Miou uma vez e Eduardo sentiu a canela latejar, miou pela segunda vez e o garoto voltou a sentir outro formigão.
- Andem logo! – ordenou ele, vendo o gato desaparecer novamente e a vela apagar-se sozinha.
- Se retirarmos o seu pé com força poderíamos te machucar mais ainda – bradara Hugo, segurando a panturrilha do irmão e puxando-a para cima. – Força... mais uma vez. Solte. Vamos agora... solte!

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