Por fim o garoto pôde retirar o pé do degrau podre. Hugo agarrou a mão do irmão e o guiou para perto do caldeirão fuliginoso. Raquel ficou onde estava. Fixou os olhos entre a madeira quebrada e empertigou-se.
- O que será isso? Brilha como ouro!
- Do que você está falando? – rosnou Eduardo, apertando a canela com as mãos.
Raquel como sempre não lhe dera atenção. Continuava a fixar os olhos para o degrau quebrado.
- É um fundo falso. Por isso que quebrou – disse ela, por alto.
- O que foi Raquel? – perguntou Hugo, sentado ao lado de Eduardo que bocejava sem parar.
E mais uma vez a garota não deu atenção.
- O que deve ser isso que está brilhando aqui dentro?
A garota colocou a mão pálida dentro do degrau quebrado, que agora era um fundo falso e muito escuro.
- É um fundo falso mesmo. E tem alguma coisa dura aqui... – disse ela, apalpando alguma coisa.
E puxou.
- Um livro! O que um livro estaria fazendo em um fundo falso de um degrau?
Eduardo sentiu os olhos arderem e as pálpebras delatarem com a claridade que saía do livro dourado. E Hugo fechara os olhos para não sentir a terrível sensação que o irmão sentiu ao olhar para o objeto.
- Onde estava? – arquejou Eduardo, misterioso.
Raquel segurava o livro com tanta força, que parecia não querer largá-lo. E Eduardo e Hugo pensaram por um instante que a irmã não queria lhes mostrar.
- É um livro... um Grimório!
- Um o quê? – admirou-se Eduardo, vendo a irmã se sentar entre Hugo e ele.
Hugo esticou a mão.
- Deixe-me vê-lo!
Raquel resmungara alguma coisa.
- Por quê? Ele parece que não quer sair das minhas mãos!
Eduardo contestou.
- Dê à ele logo e pare de frescura!
- N-Não p-posso e-eu j-já d-disse.
Hugo se aproximou de Raquel.
- Um Grimório? E estava escondido no degrau! – falou ele, fixando os olhos no livro.
- Era na verdade um fundo falso. Com o pisão de cavalo que Eduardo deu. Ajudou a quebrá-lo.
Eduardo se ofendeu.
- Eu não tenho pisão de cavalo!
- Ah... você tem! – ofendeu Raquel, segurando o Grimório fortemente.
- Não tenho não – guinchou Eduardo, tremendo ao falar.
- Tem e ponto final – disse Raquel finalmente.
- Mande ela parar Hugo – queixou-se Eduardo.
Hugo adiantou-se, muito nervoso. Tremendo de raiva.
- Já chega vocês! – cortou ele, puxando o livro com força das mãos da irmã.
Eduardo viu o rosto de Raquel ofuscado com a luz que saiu do livro. Parecendo a um véu colorido. Um tipo de magia que o livro possuía e que talvez escondia há séculos.
- Viu como ele sai da sua mão. Agradeça a mim por ter achado esse Grimório. Porque se eu não tivesse afundado o meu pé no degrau você nunca o teria achado – vociferou Eduardo, fazendo massagem na canela machucada.
Hugo examinou-o cuidadosamente.
- É um Grimório mesmo.
Raquel virou os olhos. Nem prestou atenção no que Eduardo resmungava.
- E você ao menos sabe o que é um Grimório?
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