segunda-feira, 29 de março de 2010

Página 15

gralhas se assustaram com o tombo do garoto e começaram a levantar voo para o alto da casa. Hugo foi bufando ajudar o irmão a se levantar. Raquel olhou para o alto e ouviu o crocitar que elas faziam por cima das árvores e da casa. Virou o pescoço e viu a árvore seca na frente da casa se mexer com a força do vento. Os galhos encostavam na calha velha, cheia de folhas secas, fazendo um som cortante, como se parecesse a uma serra gigante, prestes a cortar alguma coisa. Eduardo veio logo atrás de Hugo que, passou por Raquel decidido. Olhou para o lado, onde o poço de pedra estava e viu quatro gralhas lhe encarando, com àqueles olhos pavorosamente amarelos, e, sobretudo sob aquele aspecto fúnebre. Mas ele nem se incomodou, colocou o pé no primeiro degrau, e ele fez um sonzinho estranho. Olhou para a varandinha e não viu nenhuma anormalidade. Somente a poeira impregnada no assoalho podre, e folhas secas amontoadas em um canto. Raquel correu para alcançar o irmão, subindo os degraus da casa. Eduardo estava distraído, olhando as duas gárgulas, com figuras grotescas, na parte saliente da calha rente ao telhado da casa, por onde a água das chuvas escoava para o poço. O garoto olhou-as rapidamente; eram duas cabeças de falcões de boca aberta.
- Pessoal o que estamos fazendo aqui? – choramingou Eduardo, subindo os degraus e indo de encontro aos irmãos, que estavam examinando a porta.
- Está aberta – surpreendeu-se Hugo, prestes a colocar a mão na maçaneta.
Raquel se assustara mais do que Eduardo ao ver a porta se abrir sozinha. Hugo foi o primeiro a entrar. Olhou para os lados e viu imensas teias de aranha no caminho.
- Há muita teia – rosnou Hugo, esticando os braços e retirando as teias da passagem.
Eduardo e Raquel entraram logo atrás de Hugo.
- Não é tão assustadora assim. Você não acha Edu? – perguntou Raquel, retirando algumas teias da boca.
- Não sei se podemos confiar – disse Eduardo, tropeçando em um balde de latão, fazendo um barulho maior que o tombo que levara na entrada.
Hugo se aproximou do que parecia ser uma cozinha e uma sala ao mesmo tempo. Viu um grande caldeirão cheio de fuligem dentro da lareira. Ele arregalou os olhos e viu tudo escuro. Colocou a mão dentro para ver se havia algo, mas caiu para trás de susto: o garoto se assustara com um gato preto que dormia dentro do objeto.
- Um gato... e ainda mais preto – Eduardo ficou trêmulo ao falar. – Isso deve ser um mau presságio.
- Olhem – pediu Raquel diante de uma estantezinha velha. –, muitos frascos.
Hugo não lhe dera atenção. Estava examinando uma vela vermelha derretida até o meio, em cima de uma caveira amarelada.
- Fisgos Sangrentos? – estranhou Raquel, fazendo uma cara de que nunca na vida ouvira nome mais esquisito que aquele. – Murtíferas... Moréias...
- Não toque em nada Raquel – avisou Eduardo, parado diante da escada de madeira. – Vamos embora daqui...
Raquel largara de lado os frascos e foi ver as máquinas de tortura feitas de madeira.
- Parece que ninguém vem aqui há anos!
Eduardo examinava um livro sujo que pegou do lado da escada com atenção.
- Olhem isso aqui. É um livro de poções.
Hugo puxou o livro das mãos do irmão e leu a capa com atenção:
- SUEÑOS PROFUNDOS! – disse ele, sacudindo-o para retirar a poeira.
Hugo bocejou alto, sentou-se no primeiro degrau da escada. Raquel rodeou os irmãos.
- Há coisas horríveis aqui – resmungou Hugo, virando a página.
Os três escutaram um miado. Viram o gato preto no alto lhes olhar fixamente. Eduardo se apavorou mais ainda. Olhou novamente para cima e não o viu mais. Torceu o pescoço e viu Hugo e Raquel lerem com atenção o livro de poções. Ele passou pelo irmão sentado no degrau e foi para cima. Pisando devagarinho pelos degraus da escada, que contornavam a parede suja. Olhou para o alto e lá estava novamente o gato miando.
- Vem cá. Vem cá bichinho! – chamou ele, esticando a mão.
O gato correu e entrou em um quarto vazio. Eduardo saiu em disparada e o seguiu.
- Gatinho... gatinho. Vem cá – chamou novamente o garoto, entrando no quarto.

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