Eduardo ergueu o dedo indicador, apontou no rosto da irmã e sussurrou:
- Veremos então.
Quando chegaram à frente da casa colonial, viram a mãe parada na varanda e tia Klara a seu lado sentada em uma cadeira de balanço. A velha arregalara os olhos contra a luz do sol para vê-los melhor. Hugo não sabia se o que ela fizera com os olhos fora para dar-lhe uma piscadela ou foi mais um olhar de desconfiança. Eduardo sentou-se com Raquel nos degraus da escadaria e Hugo encostou o corpo em uma das pilastras. Olhou para o rosto da mãe e esperou alguma reação dela.
- Onde vocês estavam?
- No balanço velho – Raquel se adiantou em responder.
Tia Klara olhou para Raquel.
- E a curiosidade foi tanta que não resistiram em ir ver a Casa dos Horrores?
Raquel olhou para Eduardo, vacilante. Ela franziu a testa para a tia, mas não a contradisse. Então a velha continuou:
- Também gostava de ir lá. Era um refúgio para mim quando papai queria me castigar – explicou tia Klara rindo para eles e se balançando na cadeira de balanço. – É admirável como ela ainda continua de pé. É espetacular!
Eduardo limpou o nariz com os dedos sujos.
- E a senhora não tinha medo?
A Sra. Petre olhou para o filho. Mas tia Klara a interrompeu dando uma gargalhada gostosa.
- Que foi? A senhora nunca teve medo? Gabriel nos contou uma história muito...
- Verdadeira – Hugo foi cortado pela tia. – Mas isso já faz muitos anos. Eu adorava quando vovô contava. Mas com o passar dos anos essa história foi sendo esquecida e o fato de que as irmãs Farrow existiram foi transformada em uma pequena lenda de povoado.
- Mas a senhora não acredita nisso não é? Elas existiram mesmo? – perguntou Hugo sem ao menos tirar os olhos da velha.
- Se não fosse verdade porque o povo tem medo de entrar na Casa dos Horrores? Por que você acha que colocaram esse nome nela? – respondeu a tia rapidamente.
A Sra. Petre assentiu sem graça.
- Para essa cidade ter algo que contar? – tornou Eduardo, mexendo os ombros.
- Pode ser também. Mas acreditem: as irmãs Farrow existiram e eram bruxas cruéis.
Raquel arregalou os olhos e a Sra. Petre cortou o assunto.
- Agora chega de histórias de bruxas, não? Vão lavar as mãos para poder almoçar.
Hugo foi o primeiro a passar por elas e Raquel e Eduardo correram para alcançá-lo.
- Está gostando querida? – perguntou tia Klara à sobrinha. – Como se sente longe da cidade?
A Sra. Petre se virou e segurou a mão da tia.
- Nunca vou me esquecer de tudo o que a senhora está fazendo por mim. De ter me acolhido em sua casa de braços abertos. Ainda mais com meus três filhos.
- Érina era minha única irmã. A minha maninha caçula. Eu a amava demais e nunca consegui superar a sua morte – disse a tia. – Não iria deixar a filha e os netos dela sozinhos no mundo.
- Klara? – falou a Sra. Mafalda da porta. – O almoço já está sendo servido.
- Obrigada, Mafalda – agradeceu à velha, balançando a mão.
Todos almoçaram o delicioso banquete que a Sra. Mafalda preparara. Eduardo olhava os irmãos atentamente: sentia um arzinho de mistério em seus rostos. Pensou por um instante, mas sabia que os irmãos queriam que ele fizesse o que havia prometido. “Mas como entrar naquela casa velha e assustadora? Como entrar na casa que pertenceu a duas bruxas que assassinaram várias crianças?”, disse ele para si mesmo.
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