Quase uma semana havia se passado depois do Natal. Eram sete e dez da manhã e Eduardo estava no quarto com os irmãos, sentado em cima da cama. Hugo o olhava com desconfiança, e ele, já sabia do que se tratava. Mas lhe faltava coragem. Por três vezes ele parou diante do alambrado que divide as propriedades, mas acovardou-se no meio do caminho. Raquel já estava farta de ver o irmão amarelar. O garoto abriu a janela para não olhar para os irmãos; preferiu ver os raios do sol, a encará-los mais uma vez. Abriu a palma da mão e a colocou na altura da testa. De longe ele viu a casinha de madeira das bruxas, logo atrás da árvore seca, com o tronco parecido a um rosto melancólico.
- É um tédio só, ficar aqui dentro dessa casa – disse Hugo da cama. Raquel andara na direção de Eduardo parado diante da janela.
- Nem tudo – riu a garota, olhando para a Casa dos Horrores.
Hugo deu um salto da cama e foi até a janela.
- Você tem razão. Vamos tomar o café da manhã e depois vamos para lá.
- Ah, não... de novo não... – gaguejou Eduardo corando.
- Ah, sim – discordou Raquel, com uma crescente sensação de ânimo.
Eduardo só viu Hugo puxar a sua camiseta em direção à porta: o garoto dera um tapa nas mãos do irmão e o seguiu até a cozinha com Raquel ao seu lado. Lá tomaram o café da manhã. Hugo praticamente engolira o seu e a Sra. Mafalda o olhava de relance, dando certos olharzinhos de desapontamento. Mas o garoto nem se incomodou.
Eduardo comia igual a um passarinho: de grão em grão. Não estava a fim de sair com os irmãos para a Casa dos Horrores. Mas quando ele se virou recebeu uma cutucada de incentivo, nas costelas. Olhou para o lado e viu que era Raquel. Há encarou por alguns instantes e se virou, comendo mais depressa.
- Pra onde vocês vão? Não corram dentro de casa entenderam? – falou a Sra. Petre ríspida.
A mulher os encarou. Mas eles só falaram, juntos:
- Vamos passear por aí!
Os três desceram a escada. Contornaram a casa, passando pela árvore de mogno ao lado da janela e, foram-se para a mais distante, onde o balanço de pneu estava. Eduardo parou e viu o sol brilhar como uma esfera ofuscante no céu. Olhou para baixo e viu que a distância entre a Casa dos Horrores e ele diminuía a cada minuto. Voltou a olhar para o sol e virou o pescoço para ver a Casa de Campo. Escutou uma voz lhe chamar e, voltou a olhar a casa mal-assombrada. E Raquel sorria com Hugo ao ver a reação do irmão.
- Acho que é... melhor eu ficar aqui de guarda.
Hugo e Raquel encararam o irmão.
- Está bem. Se você quiser ficar aí sozinho? – disse Hugo.
- Está muito longe de casa se você pensa em voltar – completou Raquel, serenamente.
Eduardo escorregou nas palavras. Viu o irmão passar pelo alambrado e ajudar Raquel a passar. Virou novamente o pescoço para a Casa de Campo indeciso e, viu os irmãos andarem para a Casa dos Horrores.
- Esperem, eu vou com vocês! – gritou ele, descendo a ribanceirazinha íngreme e passando pelo alambrado. – Me esperem aí...
- Tsk – sibilou Hugo, tentando não chamar a atenção das gralhas perto do poço de pedra ao lado da casa.
- Ué? – espantou-se Eduardo, levantando as mãos na altura das costelas.
- As gralhas – apontou Raquel para o poço.
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