sexta-feira, 12 de março de 2010

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todos sujos e cheios de lodo, pregados na parte inferior. Eduardo passou a mão em sua franja para ver melhor; estava no meio do nada mesmo. “O que uma Casa de Campo no meio de uma cidadezinha bucólica teria de divertido?”, se perguntava.

- Onde é a casa mamãe? – perguntou Raquel, de pé, diante da mãe.

- Liguei para a sua tia há três dias antes da gente sair de casa. Não se lembra querida? – respondeu a Sra. Petre, apertando a sua bolsa de preocupação. – Só assim ela poderá mandar alguém aqui para nos pegar.

Hugo viu uma carroça atravessar os trilhos. Com um cocheiro conduzindo os cavalos na direção oposta de onde o ônibus acabara de seguir viagem. Pensou que fosse algum empregado da tia. Mas não era. O velho passou por eles e levantou o chapéu de palha, tentando dizer uma boa tarde aos novos visitantes do local. Eduardo se acomodou em um dos banquinhos de cimento, e reclamou deles serem tão duros. Olhou para Raquel e fez-lhe um sinal. A Sra. Petre pensou que o garoto já ia aprontar mais uma, só que ela se enganou: o filho apenas indicara o assento à irmã.

A Sra. Petre estava cada vez mais preocupada. Apertou outra vez a bolsa, bem forte. Quando ouviu o berro de um garoto de cabelos negros sentado no estofo da frente de uma charrete preta – com tons avermelhados – bem espaçosa.

- Sra. Petre? – berrara novamente o garoto. Era uns quatro anos mais velho que Hugo e a voz era mais aguda e forte. – É a Sra. Petre, não é?

A mulher torceu o pescoço. Hugo a acompanhou.

- Sim... sou eu mesma! – exclamou ela.

- Sou Gabriel. Vim a mando da Sra. Oliveira para levá-los a sua casa. Depois que ela recebeu a sua carta eu venho sempre aqui para ver se... chegariam no ônibus.

- Gabriel. Você é o pequeno Gabriel? – disse a Sra. Petre vencida.

O garoto concordou com a cabeça, sério.

- Vamos Edu... Raquel... peguem as maletas – mandou a mulher, eufórica.

Os quatro se acomodaram na charrete. Raquel ficara com a mãe de um lado, e Eduardo e Hugo do outro. A garota ficou sem graça ao olhar para o garoto que, segurou as rédeas com força da frente. E guiou os dois cavalos de volta à propriedade. Eduardo não estava nem um pouco feliz na posição na qual se encontrava com Hugo, os dois apertados, com as maletas no colo.

- Quem é ele...? – sussurrou Raquel baixinho no ouvido da mãe.

Um rosa-berrante coloriu o rosto da menina quando Gabriel a encarou, e ela o tampou com a blusa da mãe.

- E como está tia Klara? – perguntou a Sra. Petre com ar de quem estava ansiosa para ver a tia.

Gabriel empertigou-se.

- A Sra. Oliveira já não é mais a mesma depois que o esposo se fora. Agora a catarata a consome. Está enxergando pouco a cada dia que passa.

- Catarata? O que é isso mamãe? – disse Raquel ao ver o rosto de preocupação da mãe.

A Sra. Petre ergueu as sobrancelhas.

- É uma pequena película que se forma no cristalino do olho querida. Com o tempo impede a visibilidade da pessoa.

- Vovó fica vinte e quatro horas com ela. Acho que ela se sentirá bem melhor com os parentes que lhe resta. Afinal, ela só falou de vocês nesses últimos dias – continuou Gabriel, balançando as rédeas com força.

Eduardo e Hugo escutavam atentamente a conversa e viam o pontinho ser deixado para trás. Entraram então em uma estradinha de terra. De um lado viam-se vacas pastando o vasto mato verde que cobria a terra quase árida, e, do outro um córregozinho que beirava a estradinha. No horizonte só se via os raios do sol entre as nuvens, os pássaros pararam de cantar e os mosquitos começavam a zumbir por cima das cabeças de todos feito nuvens escuras. Depois de andarem por cerca de vinte minutos, chegaram em frente a uma porteira. A Sra. Petre olhou para o alto e viu uma prancha grudada entre um poste e outro de madeira, com os seguintes dizeres: Seja Bem-vindo a Casa de Campo da Família Oliveira.

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